Blog do Flugelboy


Feriado de Páscoa, nada pra fazer. Decidi ir com a Mariana pra Pirenópolis. AÌ vai o meu bom e velho relato de viagem:


Dia 1 (Sábado):

Saí de casa às cinco da manhã pra encontrar com a Mari na rodoferroviária. Super normal, né, sair de madrugada num sábado de feriado, as ruas vazias, aquela coisa linda. Depois de uns três sustos com gente estranha chegando na parada antesa do dia clarear, eu acabei entrando num daqueles carros particulares onde o dono passa um pouco antes do ônibus, grita o intinerário e vê quantas pessoas ele consegue convencer a baratear o custo da gasolina dele. Imagina que maravilha, eu com a pequena mochila, num Monza duas portas naquele frio da desgraça, e eu de regata. Cheguei na rodoferroviária, fiquei lá, sentado, esperando a Mari chegar. Nos encontramos, aquela farra boa de sempre, esperando o nosso ônibus sair. Rimos, conversamos, vimos um sujeito dormindo do lado do nosso banco, e nada do ônibus aparecer. Convém aí explicar que eu comprei a passagem na rodoviária de Taguatinga (um "bairro" daqui), mas avisei pro moço lá que nós íamos pegar o ônibus na rodoferroviária, que fica no centro. O horário de saída do ônibus era às 6:30, no box 2, segundo diziam os nossos bilhetes. Às 6:35, passa um ônibus, cuja placa indicava o nosso destino, saindo todo serelepe, e nós, achando que era outro ônibus, demos até tchauzinho pro motorista (que acenou de volta). Aì eu me toquei que o nosso ônibus era o promeiro do dia rumo a aquele destino! Corri no guichê da empresa pra esclarecer tudo, e ele me explicou que o cara do guichê de Taguatinga colocou o horário de saída da rodoferroviária, mas com o box da rodoviária de Taguatinga... Então, pelo que ele disse, nós tínhamos vinte minutos pra alcançar o ônibus na rodoviária de Taguá pra ter alguma chance de entrar no ônibus! A Mari me ligou (que tinha ficado me esperando lá no box), e eu a avisei da nossa corrida contra o tempo. Saímos correndo feito loucos (ela tava sem carro) rumo à parada, pra pegar a primeira coisa que passasse, e que nos deixasse o mais perto possível de Taguatinga. Logo que chegamos no ponto de ônibus, passou uma lotação. Acontece que o motorista, que com certeza era paranormal e advinhou que nós precisávamos fazer um percurso de quarenta minutos em quinze, simplesmente desceu pra tomar um - pasmem - cafezinho! O desgraçado ficou lá, comendo pão de queijo, na maior paz do mundo. Vale lembrar que eram 6:45 da manhã e os ônibus não tinham nem começado a rodar direito, ou seja, aquilo ali era a nossa única opção. Depois de um tempo (que, obviamente, nos pareceu uma eternidade), a lotação saiu. No meio do caminho, eu acabei comentando com o cobrador da razão do nosso desespero evidente. Ele falou que a lotação não passava onde nós precisávamos ir, mas ele ia conversar com o motorista pra andar o mais rápido possível e nos deixar perto de onde nós podíamos pegar uma outra van que sim, passaria onde tínhamos que ir. Dois segundos depois de o cobrador assoprar algo no ouvido do Sr. Cafezinho, essa lotação virou um ônibus espacial e vôou baixo, literalmente. Descemos perto do cemitério de Taguá e pegamos a outra van, lotada. Passaram duas paradas, entra todo tipo de gente gorda do mundo. Super-conforto. E nós dois parecendo uma versão juvenil do Jack Bauer (o cara do 24 Horas, pô!) com mochilas enormes nas costas. Descemos um tanto longe da rodoviária e tivemos que correr outro tanto. O ônibus já tava ligado, com todo mundo embarcado, porta aberta só esperando os dois malucos que saíram correndo do outro lado da cidade e chegaram cinco minutos atrasados, mesmo com todos os percalços. No ônibus, vitória total, comemoração, só alegria, afinal, nós vencemos o tempo! Isso até começar a tocar Zezé de Camargo e Luciano e nós darmos por falta de todo o líquido que nós perdemos na corrida do século. Tudo bem que o ônibus não tinha água mineral, mas isso se tornou secundário quando, enquanto nós nos divertíamos sorrindo da vida e ouvindo o Ipod da Mari (a.k.a. Deus), um mendigo (sim, um MENDIGO!!!) entrou no ônibus e começou a pedir esmola. Até aí nada demais (claro, super normal um mendigo num ônibus de viagem), não fosse o fato de ele pedir três vezes pra cada um do ônibus! Ele ia até lá atrás pedindo, e quando chegava no final do corredor, acho que esquecia o que tava fazendo por causa da cachaça, e pensava: "o que eu tô fazendo aqui?" Como ele com certeza não se lembrava, entrava no piloto automático e começava a pedir de novo. Foi assim até nós chegarmos na rodoviária de Corumbá, onde nós enfim pudemos comprar água. Entre o pequeno percurso de Corumbá à Pirenópolis, conversamos com uns caipiras (não é preconceito não, é caipira mesmo, de mascar palha no canto da boca) no ônibus, e umas mocinhas atrás de nós, isso sem contar o mendigo, que pelo visto simpatizou muito comigo, porque no fim quis até apertar minha mão! Enfim chegamos à Pirenópolis. Uma rodoviária minúscula, mas super bonitinha. Aí nos deparamos com o nada-absoluto. Como toda boa viagem minha, não rola muito planejamento. Decide-se o destino, a data da volta e só. O resto, descobre-se lá. Só que como a Mari nunca tinha viajado assim, eu fiz um mini-prospecto do nosso roteiro turístico pra que ela se sentisse mais amparada. Tá, é exagero. Na verdade eu peguei um pedaço de guardanapo e anotei o nome das três primeiras cachoeiras que eu vi num site na véspera de viajar. Perguntamos lá na rodoviária onde ficava o Centro, pra gente poder sacar dinheiro e ela deu as direções. Passamos por um corredor de pedra lindo, e saímos perto da Matriz. Achamos os bancos (calor da desgraça e a cidade lotada de pleibóis), e no centro de informações da cidade, perguntamos onde eram as cachoeiras do Bonsucesso (um dos três nomes que eu anotei no papelzinho), e ela indicou o caminho, com aquela cara de é-longe-pra-porra. Ladeira abaixo, descobrimos que não lá não tem diferença entre casa, loja e museu (quase entramos numa casa achando que era um antiquário, mas fomos advertidos por um rapaz limpando o chão lá nos fundos), encontramos lojas lindas de artesanato, conversamos muito com vendedores, atravessamos a ponte de madeira vermelha, até chegarmos em frente a uma casinha de esquina. Paramos lá pra pedir informação sobre o local das cachoeiras, e acabamos descobrindo um atelier muito chamosinho de uma artista plástica chamada Meg que fabrica todo tipo de artesanato com as fibras de uma planta local. Era uma mulher muito bonita, mas com traços marcados do tempo. Loira dos olhos azuis, com a pele queimada de quem não abre mão do banho de sol todos os dias ela não sabia bem pra onde eram as cachoeiras que nós procurávamos. Conversando um pouco, ela contou pra gente que tinha uma pousada em Porto Seguro antes de se mudar pra Pirenópolis, e que ela tinha filhos mais ou menos da nossa idade. Quando nós estávamos nos despedindo, ela perguntou onde nós íamos nos hospedar. A pergunta cruel pro mochileiro. Falei a verdade pra ela: 'tava com a barraca na mochila, com os sacos de dormir e tal, mas não fazia a menor idéia de onde a gente ia passar a noite. Ela nos deu um olhar muito, mas muito terno, e nos levou até uma porta de varas de bambú. Abriu e disse que, se a gente não conseguisse camping em lugar nenhum, a gente podia acampar ali, no quintal dela. Falei pra ela que talvez a gente fosse acampar perto da cachoeira mesmo, mas que eu fiquei lisonjeado com o convite. Nos despedimos dela e subimos uma ladeira pro lado onde ficava a estrada pra cachoeira.


(Continua...)

Escrito por Flugelboy às 22h55
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(Continuação...)

Depois de caminhar um monte, encontramos a tal estrada: cinco quilômetros de terra batida, poeira alta e nenhum acostamento pra pedestre caminhar. Só terra. Que nós fizemos? Esticamos o braço! Depois de caminhar um pouco, encontrar duas brasilienses no caminho, e levar uma porrada de "nãos" dos motoristas, um Renault Clio Sedan (1.0, como nós viemos a descobrir depois) enconstou e o motorista fez sinal de que só tinha lugar pra um. Eu fiz aquela cara de não-largo-essa-menina-aqui-nem-que-a-porra, e ele disse pra ela entrar também. Quando entramos no carro, descobrimos uma família linda, recém-formada, daqui de Brasília também, indo pras mesmas cachoeiras que a gente. Conversamos sobre os perigos de dar e pedir carona, e quando chegamos nas cachoeiras, nos separamos. Eu e Mari fomos vestir a roupa de banho e demos de cara com um grupo de pessoas falando inglês (gente, que finesse em Piri!). Nos trocamos e fomos pras cachoeiras. Andamos um monte, trilha no meio do mato, passamos por umas duas cachoeiras que estavam lotadas e paramos na terceira pra tomar banho. Água geladinha, uma delícia. Brincamos na água, conversamos com um pessoal lá e nos distraímos, até que fomos assolados pela cruel realidade: estávamos azuis de fome! Voltamos pra entrada da fazenda pra comer, e encontramos uma meia dúzia de panelas de ferro quase vazias, nada de pratos nem talheres. E tudo isso por dezessete reais por quilo! Maravilha, né? Esperamos lavarem alguns pratos e talheres e comemos (mal pra caramba). Juntamos coragem e subimos a trilha de novo, até a última e mais alta cachoeira, na esperança que ela estivesse vazia e disponível pra nós. A trilha é curel. Em alguns pontos, é tranqüila e plana, e de súbito, você tem que escalar pedras íngremes e em falso. Sério, acabou com as nossas pernas. Depois quase uma hora de trilha, chegamos ao topo: a cachoeira lotada de axezeiro com latinha de Skol. Frustrados, descemos um tanto e paramos na quinta cachoeira (a segunda de cima pra baixo). Deixamos as coisas numa pedra e entramos na água. A Mari ficou na beira d'água e eu entrei com tudo. Caminhei um pouco dentro da água e, de súbito, o fundo sumiu! Fiquei indo a tona e sumindo um monte de vezes até que alguém se tocasse que eu não estava brincando de batalha naval, que eu não estava fingindo que meus dotes de natação se comparam a uma pedra-pomes e que se alguém não me acodisse logo, eu ia bater a caçoleta ali mesmo. Um rapaz me deu a mão e eu fiquei meio assustado, até a gente se refazer e descer pra uma cachoeira mais tranquila. Lá, tomamos sol, brincamos um pouco na água, até a gente se tocar que tinha que voltar antes da fazenda fechar, caso contrário não conseguiríamos carona. Descemos a trilha toda de novo (ai minhas pernas e meu joelho), e ficamos de bobeira no restaurante até encontrarmos alguém que fosse descer pro mesmo rumo que a gente. Conversamos com um japonês nerd que fazia Direito na UnB e também tava de carona, e as duas amigas dele. Quando eu vi que ele não era um contato útil, descartei o japa e acabamos fazendo amizade com dois caras muito chapados, mas que tinham um carro (tá, era um Escort prata todo fudido de ano indefinido). Esperamos um pouco, tomamos umas cerveja com eles, e entramos no carro, rumo à cidade de novo. O carro simplesmente não agüentava o tranco! Parecia que ia parar a qualquer momento! O motorista super bêbado, ouvindo reggae, e curtindo a lombra dele mal conseguia controlar o carro, que era obrigado a ficar com as janelas aberta s(já que não tinha ar condicionado) enquanto toda a poeira do mundo se levantava e entrava nos nossos olhos, bocas e narizes (já disse do quanto de terra tinha naquela estrada?). Mas ainda assim foi a melhor carona ever: tinha cerveja gelada e nós não estávamos a pé! No caminho, os chapadões pararam o carro pra tirar foto com um senhor de 92 anos que nunca tinha saído de Pirenópolis, além de ficar cumprimentando todo mundo na rua (eram gentlemen!). Quando chegou na cidade, nos despedimos deles e fomos até o atelier da Meg, pra falar que nós não tínhamos conseguido camping. Ela ofereceu o quintal dela novamente, mas ponderou um pouco e lembrou-se que a lojinha dela estava desativada. Mandou varrer e forrar um tapete, providenciou um dos cachepôs de velas que ela faz (já que a lojinha tava sem energia elétrica) e deu a chave na minha mão! Conhecemos o marido dela, Acerola, que estava fazendo umas tochas imensas pra um restaurante do outro lado da rua. Tomamos banho, conversamos um monte, Meg nos disse pra nos fingirmos de sobrinhos dela, já que o pessoal da terça parte do lote não podia saber que ela tava oferecendo hospedagem de graça pra gente, e decidimos que nós íamos tirar um cochilo, pra depois comprar um vinho, dividir com eles e sair pra curtir a noite da cidade. Me apaixonei loucamente pela lojinha. Era pequena, devia ter uns três metros por cinco, e metade do espaço era ocupado com artesanato guardado, mas tinha umas janelinhas de madeira lindas, e um telhado colonial muito gostoso. Chamamos o lugar de casa e dormimos lá até as 8:30 da noite. Saímos pra lanchar, a Mari comeu um pão com ovo enquanto eu cantava o Xote das Meninas com o cara do mercado, compramos um vinho e velas pra noite e voltamos pra casa. Bebemos o vinho com a Meg e o Acerola, e ele saiu pra acender um 'cigarro', mas não sem antes perguntar se a gente se incomodava. A gente disse que tudo bem, e lá volta ele com o negócio pronto. Nisso, Meg nos contou sobre a sua vida antes de se casar com Acerola, que tinha uma pousada em Porto Seguro e que era casada com um cara muito gente boa, mas descontrolado financeiramente, contou de todas as festas loucas que ela já tinha ido, dos lugares que ela já decorou e de todos os planos que ela tinha pro futuro, pra transformar aquele lugar numa área de camping linda, com um restaurantezinho de comida boa e gostosa, mais a lojinha de artesanato deles. Acerola falou pra gente do período ideal pra se colher aquele material pra fazer o artesanato, e que ele viveu na beira da praia também, por muitos anos. Fomos ficar sentados na calçada com a Meg, e ela acabou nos falando da feirinha da cidade, que fechava às dez. Como já eram nove e pouco, a gente saiu correndo pra ver, e ficamos de encontrar com os dois mais tarde, numa pizzaria decorada por eles. Andamos um monte pela cidade lotada, procurando um Martini pra Mari, e enfim fomos parar na feirinha, onde eu vi de tudo: tinha artesanato de barro, batas coloridas, um cara nos falando da filosofia Hare Krishna, um argentino flamenguista que vendia brincos, uma trupe circense que tocou Havah Nagila... Resolvemos voltar pra casa porque estávamos muito cansados, afinal, o dia tinha começado em Brasília, às cinco da manhã! Mas no caminho, me deu uma vontade louca de tomar sorvete, e nós fomos de canto em canto procurando por uma sorveteria, até que a garçonete de uma pizzaria nos indicou uma sorveteria muito boa chamada Colorê. A sorveteria só não era melhor porque não estava aberta. Depois de termos andado Pirenópolis inteira pra descobrir isso, fomos pra um café que não servia mais nada (mas que a garçonete esperou a gente sentar na mesa pra avisar), e pegamos o caminho de volta. Nesse caminho, achamos a tal pizzaria decorada pela Meg e o Acerola, e entramos lá, mas tava lotado, embora tivesse uma música ao vivo muito boa. Quando estávamos quase chegando em casa, achamos uma lanchonete aberta, e pedimos um suco de cajá. O melhor da cidade. Sério, tinha uns 600ml em cada suco. Dava pra tomar uns dois copos cada um, e ainda sobrava um tanto. Fomos pra casa e apagamos.

(Continua...)

Escrito por Flugelboy às 22h53
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(Continuação...)

Dia 2 (Domingo):

Depois de rolar muito, consegui pegar no sono com um travesseiro improvisado de toalhas. Choveu muito à noite, mas não molhou nada. Às seis da manhã, a Mari me acorda dizendo que queria ir ao banheiro, mas não alcançava a corrente que prendia o portão de bambú. Azul de sono, fui lá, abrir, esperei e fechei. Caí no sono, até minha mãe me ligar, às 9 da manhã pra desejar feliz páscoa. Apaguei de novo. Levantamos em definitivo ao meio dia. Tava super mal-humorado no exato instante que acordei, mas acordar do lado da Mari é um trem que supera qualquer mal-humor. Rimos um tanto, brincamos e escovamos os dentes. Encontrei com a Meg no quintal, e ela tava meio triste porque os filhos dela não iam vir pra cidade nesse fim de semana. Enquanto conversávamos um pouco, ela viu a corrente no meu braço e elogiou, disse que era muito bonita. Perguntou o que nós íamos fazer agora à tarde, e eu disse a ela que nós íamos ao banco tirar dinheiro (nada naquela cidade aceita cartão), almoçar, comprar as passagens na rodoviária e depois dar uma andada pela cidade. Ela disse que, caso quando a gente voltasse ela não tivesse lá, era pra eu deixar a chave por debaixo da porta. Fomos ao banco, almoçamos num restaurante que parecia uma casa (e que também era o centro de informações ao turista) e depois seguimos pra rodoviária, pra comprar as passagens de volta. Compramos pro ônibus de 16h, e voltamos pelo corredor de pedra lindo, onde tiramos algumas fotos pro portfólio da Mari. No caminho pro centro, a gente achou um restaurante simplesmente fantástico que se chamava Le Bistrô. A decoração era toda fantástica, com taças enormes com guardanapos coloridos, encostos de cadeiras feitos de retalhos, e muita música boa! Pedimos pra tirar umas fotos pro trabalho da Mari lá, e ficamos amigos do filho da dona do restaurante, chamado Diego. Depois de muitas fotos lindas, fomos pra parte de cima do restaurante, que era como um mezanino, perto do teto cheio de folhas secas no chão. Pedimos um petit gateau pra cada um e nos deliciamos com um dos melhores doces que eu comi na vida! Pagamos no cartão (sim, eles aceitam cartão!), fomos até uma lojinha de artesanato e compramos dois colares lindos com uma pluma pra nós, e voltamos pra casa. Pegamos nossas coisas, limpamos tudo, dobramos o tapete e devolvemos a tocha. Chamei a Meg, mas pela janela, vi que ela estava dormindo. Não tive coragem de acordá-la. Estiquei a mão e coloquei a chave da casa em cima da mesa, enrolada na minha pulseira, que agora é dela. Passamos no suco de cajá pra saideira, nos despedimos da cidade e corremos pra rodoviária, pra não perder o ônibus. Conversamos sobre tudo, sorrimos da própria vida e choramos dela também, cantamos alto (tinha uma menina no banco da frente que virou nossa fã), e fizemos três horas parecerem quinze segundos. Deixei minha neguinha no carro com o pai dela, arrumei minha mochila nas costas e pensei como é bom viver a minha vida. Tô encantado, até agora.



"A gente merece"


PS¹.: Feliz aniversário, Malú.
PS².: Mari, obrigado por tudo!
PS³.: www.artesnaturais.com , o site do atelier da Meg e do Acerola!


No meu WinAmp tá tocando®: Muse - Supermassive Black Hole (Isso e tudo o mais que a gente cantou na vida!)

Escrito por Flugelboy às 22h50
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Noção do fim de semana: higiene.

Infinito sobre cinco

     E naquela noite, movido pelos cortes que tinha na alma e pelo vinho que escorria deles. fez a mais justa das divisões. Repartiu o céu, por igual, entre gente que merecia a quinta parte do infinito. Pra moça pequena dos óculos vermelhos e das lágrimas nos olhos, deu toda a parte que o lago conseguia refletir. Pro rapaz que abraçava com a alma, deu tudo aquilo que ele conseguisse cantar. Pra menina com nome e cheiro de flor, deu tudo aquilo que a vista alcançava. Pro rapaz louco que vibrava com a vida, deu tudo aquilo que brilhava. E pra ele, guardou a melhor parte: ficou com tudo aquilo que cabia no peito cansado de onde ele tirava as forças que nunca teve.

     Mesmo com as lágrimas escorrendo secas, dormiu como nunca naquela noite.

A quinta parte.

PS¹.: Overdose de cascas.
PS².: Carecendo de miolos.
PS³.: E amo meus amigos, caso ainda não tenha dito.

No meu WinAmp tá tocando®: Alejandro Sanz - Corazón Partio (Nunca fué compartir/ sino dar limosna.)

 



Escrito por Flugelboy às 22h43
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Dia: quente.

    Panfleto

    De todas as coisas que eu não sei, e dessas encheriam-se livros e livros, em volumes intermináveis de enciclopédias insanas, de todas essas coisas, jogadas pro alto e pegadas com a mão, sortem-se as que eu queria e as que eu não queria saber. E dessas que eu não queria, faz-se um punhadinho, uma revistinha, quase um panfleto de semáforo. São coisas sobre você. Não quero saber quando (e se) você vai embora. Nem quero saber se um dia você vai me espremer uma lágrima, das doces ou das amargas. Não jogue esse panfleto em via pública.

Papel...

PS¹.: Vou passar o fim de semana fora, só volto no domingo.
PS².: Cabelo cortado, All Star comprado, quarto redecorado. Ano novo.
PS³.: E um MONTE de trabalho.

No meu WinAmp tá tocando®: Skank - Balada do Amor Inabalável (Classic.)



Escrito por Flugelboy às 10h41
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Temperatura do Dia: Frio.

Telefono ou Teléfono

Não que eu ligue, mas...

Tá talvez eu ligue.

Ah, acho que eu ligo sim.

Ligo.

Ligo mesmo, e daí?

Liguei.

Tu tu tu tu...

Não que eu ligue, mas...

PS¹.: Mínima lista.
PS².: Extra! Extra! Inversão dos vetores gera situação surrealista. Dali se levanta dentre os mortos e aplaude.
PS³.: Amanhã, me darei dois presentes: um corte de cabelo novo by Isabella Ferrugem e um par de All Stars, coisa que eu nunca tive coragem de comprar, até hoje. E o vento sopra nas velas do profissional, minha gente.

No meu WinAmp tá tocando®: Tom Jobim & Gal Costa - Desafinado (Canção pra se cantar em horas como essa.)



Escrito por Flugelboy às 21h19
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Sentimento do Ano: "Esperança."

Bonne Anneé

     Sentou pra colocar na ponta do lápis o que podia e o que não podia. Viajar não dava, umas três ou quatro sessões de cinema naquele mês, talvez. Assim, acordava pro que havia de mais dolorido no segundo dia do ano (e em todos os outros): a realidade. Dia dois de janeiro era um tapa na cara. Passadas as festas, ela ficava com aquela sensação horrorosa de quem não sabe por onde começa. O Brasil inteiro só caía nessa depois do Carnaval, mas ela não.

     Na frieza estranha daquele apartamento cinza de refletir o céu nublado lá fora, pôs-se a rabiscar contas, metas, planos. E, inevitavelmente, caiu no flashback do ano que terminou dois dias antes. Sempre se despedia dos anos com a idéia vaga de que algo ia dar muito errado. E em se tratando daquela vida, não era propriamente intuição. Bom senso e uma dose de silogismos, talvez.

     Então, nas árvores balançando lá fora com o vento gelado da cidade que esfria em janeiro, aconteceu o que mais temia. Pensou naquilo que não era nem passado, nem futuro. Naquilo que, não importa o quanto rabiscasse, desenhasse, calculasse, naquilo que não estava na alçada das suas rédeas.

     Se incomodou, é claro. Detestava perder o controle. Levantou, e foi até a TV. E, de repente, todos os programas, novelas, clipes, propagandas de margarina, tudo, passou a fazer um sentido ridículo. Ligou o rádio, e depois da terceira canção de amor que se pegou cantarolando, correu pra deibaixo do edredon.

     Entrou em desespero quando achou que viu dois corações no céu cinza.

Céus Cinzentos

PS¹.: E no Reveillon, teve de tudo, do bom e do melhor. Inesquecível, até agora, sem dúvidas.

PS².: Sim, blog ressuscitado por tempo indeterminado.

No meu WinAmp tá tocando®: Muse - Starlight (A melhor coisa - da música popular - dos últimos tempos).



Escrito por Flugelboy às 14h11
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Lição do dia: "Pedro é assim, todo ao contrário."

Texto para o 31° Concurso Maldito.

     Conhecia o tal do lirismo, de ouvir falar. Um povo que cheirava cores, bebia paisagens, rodava e rodava, sentava e escrevia tudo. Ele lia, meio ressabiado. Achava bonito, até. Sabe, dava uma invejinha, assim, meio-amarga. Sei lá, né, vai que era bom? Não que aquilo fosse a praia dele, de jeito nenhum. Era mais assim, direto. Olhava cadeira, achava bonito, achava madeira, mas era só cadeira. Nada de flores, viagens, mundos e portas abertas, só de sentar na cadeira. Cadeira é cadeira e acabou, ué.

     Mas de tanto pensar a respeito, um dia resolveu tentar. Subiu em árvore, cheirou terra molhada, tomou banho de rio, rolou na grama até dormir. Cantou pras estrelas do céu, releu todas as três cartas à mão que já tinha recebido na vida, se deixou sentir saudade, viu Greta Garbo e leu Cortazár.

     Se divertiu pra caralho, arrumou uma puta dor nas costas, chorou um pouco, mas e o lirismo? Porra nenhuma. Vai ver não era pra ele...

Clichê

PS.: Lirismo é o povo dançando em torno de uma roda tocando Greensleeves, num é?

No meu WinAmp tá tocando®: Canadian Brass - Greensleeves



Escrito por Flugelboy às 00h26
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John - Nineteen:Forty One

Texto para o 30° Concurso Maldito.

     Cego de um olho, vesgo do outro. Olhava e não via nada. "Acho que esse menino é meio burro". E isso na escola, até decidir que não queria mais. Decidir não era bem a palavra, não era do tipo que decidia coisas. Não tinha critério pra isso. Queimaduras de cigarro nas costas, as marcas de havaianas com prego pra prender a correia nas pernas. O que seus pais tinham de melhor pra herança.

     Só sabe que um dia, começou a fazer frio. E as vozes àsperas sumiram. Quando não cabia mais na caixa de papelão, começou a pedir. Mão retorcida e suja, esticada na praça. Cego de um olho, vesgo do outro. Olhava e não via nada.

"É."

PS.: Textinho curto, sacumé. Nem todo mundo é comissionado pela Globo pra co-autorar novelas das oito.

No meu WinAmp tá tocando®: Chico Buarque - O meu Guri (Nem todo mundo chega lá.)



Escrito por Flugelboy às 18h36
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Mochilão pra BH, Parte I

Esse fim-de-semana merece ser postado. O raio da viagem era pra fazer a prova da federal de Ouro Preto, mas acabou servindo a propósitos muito melhores. Segue a epopéia de um cara da cara engraçada pela capital mineira:

Dia 0

Andei pra caralho, pra pegar a mochila com a Malú e as pilhas com a Renata. Quem acha que o mundo é redondo com certeza nunca foi à casa da Renata. Dava pra ver o grande abismo lá do outro lado da pista, e eu desconfio seriamente que eu ouvi as pessoas falando alguma variação do espanhol nas ruas. Voltei correndo pra casa pra arrumar as coisas. Arrumei quarto, arrumei mochila, arrumei cama, arrumei até os tapetes. Porra, não gosto de viajar às pressas, muito menos deixar as coisas desorganizadas na minha ausência. Já que meu ônibus ia sair às 21:40, dava tempo de fazer tudo com calma... Até que o gênio aqui esqueceu de comprar biscoitos no mercado perto de casa. Convém esclarecer que comprar biscoitos é um ritual sacrossanto quando se trata de viagens, pra mim. Outro esclarecimento pertinente é que o mercado aqui do lado fecha às 20h, e dez minutos depois, lá estava eu, a famosa expressão "ai caralho", batendo a mão na testa. "Mãe, me leva no centro, pra comprar uns biscoitos?" E lá vai o menino correndo com a mochila nas costas pra dentro do carro. Biscoitos comprados, estava na rodoviária, enfim. Uma hora, à toa, olhando pro horizonte. Se não fosse o mp3 player, duvido que eu não teria me atirado no meio do mato. Embarquei. Óbvio que eu peguei cadeira de janela. Por mais que ficar afastado do corredor tire um pouco do conforto, poder dormir enconstado em alguma coisa é tentador, pelo menos pra mim. Mas alegria de pobre não dura. "Moço, 'Cê podia trocar de lugar comigo?" Quando eu me viro, uma senhora loura, lá com seus 45 anos, sentada numa cadeira de corredor, e pedindo pra ficar ao lado da filha, que era a minha companheira de assento. Tentei me desvencilhar, passando a bola pra moça que tava do outro lado, mas ela não me pareceu muito amistosa. E eu, trouxa, cedi. Tava no corredor, a contragosto, sentado do lado de um "intruiz": uma mulher com uma carteira de cigarros altamente ameaçadora, uma compulsão por gloss e nenhum, eu disse nenhum gesto de simpatia. Bah, pelo menos eu tinha música pra ouvir. Mas pilhas não são coisas eternas. Por volta de três da manhã, tive que ceder ao som natural do ônibus: a senhora loura roncando. Não, aquilo não era ronco. Além de fazer barulho de porcos se arrastando, ela ainda dava uns estalos, que nem árvore pegando fogo. E a moça do meu lado, toda espaçosa, usava todo o apoio de braço e resmungava algo toda vez que eu esbarrava nela. Dormi encolhido, todo torto e com uma puta dor no pescoço.

Dia 1

Cheguei na rodoviária, maravilhado. Pra quem mora aqui no Planalto, sabe que nosso terminal rodoviário não é memorável pela sua higiene. E lá em Bê-Agá, nossa! Parecia mais um aeroporto onde param ônibus (ou como diria Bibi, ônibis), ao contrário daqui, que mais parece um pombal onde para ônibus, dinossauro, mendigo, travesti... Liguei pra Lara, pobrezinha, tinha acabado de acordar. Disse que em uma hora estaria lá. Pô, uma hora deu pra eu rodar um pedaço considerável do entorno da rodoviária. E gostei do que vi (exceto talvez pela moça com vestido de chita descendo do ônibus olhando a cidade, maravilhada; juro por Deus). Uns antiquários, estações de metrô... Uma hora e nada de Lara. Liguei pra ela, com aquela propriedade de nativo que só alguém muito cara de pau tem. "Sabe a estação da Lagoinha? É só pegar a passarela e você vai dar no desembarque dos ônibus, uai." Duas horas na cidade e eu já pagava de guia turístico. É muito abuso mesmo. Deu um tempinho (umas duas horas, assim) e Lara chegou. Não foi um abraço daqueles que você dá num desconhecido, uma apresentação formal. Foi assim, um abraço de velhos conhecidos, que não se viam há algum tempo. E já saímos conversando fiado, da vida, das angústias, do tempo, dos dinheiros poucos, da vida ruim da gente. Rindo, sempre. E sobe a Afonso Pena atrás de hotel. E desce de volta, raio de diária cara. Aonde que eu pago cinqüenta-conto pra dormir e tomar banho. E de tanto andar, deu vontade de comer empada. Mas não é qualquer empada, porra. Tem que ser daquela sequinha, da massa esfarelando, recheio de frango. Lara me ensinou uma receita ótima pra tal massa. Mas já que a gente não achava o nosso Graal de massa-podre e recheio de frango, o jeito foi se acabar num "serve-serve". Comemos, rimos do hino alheio, consideramos sobre futebol, essas coisas. E lá vai a gente subir de volta pra Afonso Pena pra eu pegar o 2004 e ir pra UFMG, fazer a prova. Sim, eu tinha uma desculpa muito da fuleira pra estar em Belo Horizonte! Fazer a prova da UFOP. Antes de entrar no ônibus (tá, ônibis), Lara pareceu duvidar do meu senso de orientação, mesmo que sutilmente. E eu, como adoro me lascar, apostei com ela como eu conseguia achá-la em qualquer lugar da cidade, com apenas duas coordenadas. No ônibus lotado, já achei conversa com mais uma pá de gente, eu sou de Brasília, e você vai ficar hospedado onde, sei não, dorme lá em casa e o escambau. Descendo do coletivo, uma mocinha baixinha dos olhinhos espremidos me cutuca. "Você é amigo de Lara?" Ai meu deus. Fui descoberto. Ela disse que tinha xeretado no meu orkut, e que a Lara pediu que me cuidasse. Gabriela, nem dei muita idéia. Fiz prova, ri demais, esse povo que não é do CESPE é um negócio. Achei a prova meio besta, mas isso não vem ao caso. Saí da prova, liguei pra Lara, não sem antes ser zoado pelos guardinhas que acharam que meu sotaque era carioca (Moço, onde fica um telefone público perto daqui?/Ali na esssshquina). "Bar do Jão, Prassavassi." Pra quem não sabe, é mais ou menos como procurar uma "Cantina da Mama na Mooca". Mas eu sou teimoso. Peguei um ônibus pra Prassete, e de lá um pra Savassi. Procurei um pouco e voilá, Bar do Jão! Vamos ver o jogo! Uns fidaputa com cara de mauzão soprando corneta do meu lado, eu doido pra mandar eles buzinarem com o boga, Lara com medo de eu arrumar confusão, os meninos com spikes nas mãos. Passa quinze minutos e lá tô eu usando o fogo deles pra acender cigarro do alheio, dando tapinha nas costas e conversando fiado da vida ruim dos jogadores. Quando tava quase acabando o jogo, chegou Gabriela, a da UFMG. Mas aí não era mais Gabriela. Quando Lara a chamou de Bibi, parece que de súbito, a moça virou outra. Empatia imediata. Fomos ao McDonalds, encher o bucho pra güentar os roque-doido, mas aí veio uma dura realidade à tona: tava todo mundo só o caiau de tão cansado. Aí surgiu aquele velho programa maroto: vamo todo mundo pra casa de Bibi, a gente dorme lá e Pedro cozinha pra nós, que tal? Eu, não me faço de rogado, adorei a idéia. Deixamos Andrei na parada (que imita Carla Perez como ninguém), e fomos nós três pra casa de Bibi. Subimos num elevador vermelho lindimais. Chegando lá, depois de todo mundo banhado e limpo, quem é que queria mexer com comida? Ah, pede uma pizza gigante e umas dez cervejas, fica por isso mesmo. Botamos os colchões na sala, e enquanto esperávamos a pizza, Lara ficou fazendo trancinhas no meu cabelo, brincando com a câmera... Mas, óbvio, quando a pizza chegou, foi tudo pro espaço. Só que eu tava tão cansado que não conseguia nem comer. Foi a conta certinha de Lara encher meu colchão de bacon, Bibi ligar a TV na MTV, e cabum, Lara apagou. Foi na ordem que estavam os colchões, da direita pra esquerda: Lara capotou, depois eu, depois Bibi, eu deduzo.

[Continua...]



Escrito por Flugelboy às 22h55
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Mochilão pra BH, Parte II

Dia 2

Demorei umas duas horas pra criar coragem de abrir o olho. Tava cansado demais. Ficamos lá, os três, dormindo no chão, conversando de olho fechado. Só levantei porque, enfim, eu tava com fome. Comi uns quatro pedaços de pizza gelada, com cerveja. Que beleza de café da manhã. Disso saiu a frase mais linda do nosso eventual trio de três. Lara queria uma faca pra cortar um pedaço de pizza ao meio. E todo mundo sem querer mexer com louça. "Ah Lara, come o tanto que você der conta, depois eu acabo de comer." Aquilo foi de uma beleza, de uma cumplicidade. Como diria Lara, "acho comovente". Umas muitas cervejas depois, todo mundo banhou de novo, e fomos fazer a segunda etapa da prova. Só que a merda da Afonso Pena tava interditada por causa da Feira Hippie. Eu e Bibi no ônibus, sabendo que não ia dar. Chegamos quinze minutos atrasados na UFMG, mas os dois com a cara mais serena do mundo, aquela cara de quem não tá nem coçando de preocupado. "Bora sair daqui de perto desse povo chorando, Bibi. Bora beber na Savassi. Liga pra Lara." Lara brigou. "Vê se pode, perder prova e ficar manso desse jeito?" Marcamos na Praça da Liberdade, de lá pra Savassi beber uns goró.Lara demorou mais de duas horas pra chegar, enquanto isso, eu e Bibi na Praça, cheia de família, de menino brincando, de uma emaiada do capeta dançando valsa no coreto, escoteiros batendo pau no chão e gritando... Coisa impressionante. Enquanto Lara não chegava, fomos ao museu de Geologia. Respondi pesquisa de opinião, conversei com o povo de Lara lá em Ipatinga ao telefone, brinquei com as pedras, , comprei uma flauta de peruano, e nada de Lara. Depois me vem a menina com cara de árabe, toda triste. "Que foi, Lara?" "Tentaram me assaltar, mas eu não tinha nada pro assaltante levar, aí ele deixou quieto." Gente, eu segurei demais pra não rir, mas foi impossível. A pobre entrou no primeiro ônibus que viu e foi andando da rodoviária até a Praça. Mas ninguém quer saber de vida ruim do zoto não, e fomos encher a cara. Foi muito bonito, ouvi muita coisa interessante ali. Aprendi muito sobre gente, e aprendi muito sobre mim. O boteco era o fino da bossa: até Baba Baby tocou, pra se ter noção. Algumas cervejas depois, hora de ir embora. Lara tinha que ir, mãe dela veio de Ipatinga só pra vê-la. Aí veio uma coisa linda. Acho que uma das mais bonitas que já me fizeram. Ela viu que eu ia ficar um bocado lá na Rodoviária à toa. Tirou um livro da mochila. Do escritor favorito dela. Riscou o nome dela na contra-capa, pegou uma caneta e me escreveu uma dedicatória. Só li no ônibus, indo pra Rodoviária, não gosto de chorar na frente do zoto. Depois, hora de despedir de Bibi. Engraçado como tem gente que conquista. Toda meiguinha, com aquele sotaque mais engraçadinho, conversando fiado, rindo de mim. Bibi me encantou, deixou de ser apêndice de Lara pra ser a Bibi, só ela. Coisa incrível. Na rodoviária, fui ler o livro que Lara me deu. Gente, todo tanto que eu falar é pouco. O livro é muito lindo, mas ele ficou uns dois e mêio mais lindo pelo contexto. "1933 Foi Um Ano Ruim", de John Fante. A dedicatória, de arrancar lágrimas até do forasteiro sem coração. Desci pra embarcar no ônibus, e quando tava quase saindo, descobri que era o ônibus errado. Quase fui parar no Rio de Janeiro por acidente. Troquei de ônibus às pressas. Nada de muto grandioso na viagem, exceto por um filme de pandas e um bebê chorando anoite toda no banco ao lado.

Dia 3

Cheguei na Rodoferroviária de Brasília. Não costumo viajar com muito dinheiro vivo, então fui sacar dinheiro no banco pra pegar o ônibus e ir embora pra casa. E advinha?! Sistema da cach-conômica fora do ar. Então eu ia ter que esperar minha mãe ir pro trabalho, que era no caminho pra Rodoferroviária, pra me dar algum dinheiro trocado. Sabe, é degradante não ter dinheiro. Mas é humilhante demais ter dinheiro e ainda assim ter que pegar com os outros porque o seu banco tem vontade própria, e que em geral é divergente da sua. Liguei pra minha mãe, e ela começou a gritar feito louca desvairada, jurando que eu tinha gastado todo o dinheiro e tava na rua sem um tostão. Tentei explicar, mas a histeria não deixou. Desliguei o telefone na cara dela, e fiz o que eu podia fazer: fui pra Estrutural (uma via enorme de ligação daqui) e dei com o braço. Sim, além de mochileiro, eu me tornara caroneiro. Pronto, fato consumado. Desci no cemitério e vim andando até em casa, quarenta minutos de caminhada, pra quem teve um final de semana desses, com uma mochilinha leve como aquela. Bom demais, não? Fechei com chave de ouro.

Pedro is a hitchhiker now...

PS¹.: Sinto que alguma coisa mudou aqui dentro com essa viagem. Preciso de um tempo pra entender o que foi.

PS².: Deu pra dar uma esquecida na dor.

PS³.: Não dá pra acreditar que eu gosto de Lara e Bibi desse tanto. Dá até vergonha. Sei lá, eu era acostumado com prazo pra essas coisas, uns dois meses, pelo menos. Mas tem como não. E ó 'cês duas, o convite pro aniversário de quinze anos de Mayana tá mais do que de pé. Já coloquei o nome de vocês na lista, podem tirar os vestidos de chita do guarda-roupa e botar no sol pra tirar o mofo.

No meu WinAmp tá tocando®: A-Ha - Lifelines (Acho que foi a música da viagem pra mim. Deus abençoe o Mp3 player da Thaisa.)



Escrito por Flugelboy às 22h54
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Sentimento do Dia: "Apatia."

     Texto para o 22° Concurso Maldito.

     Mãe

     Na cabeça amarela e chata, ensangüentada no chão da rodoviária, ecoou a voz suave e firme da mulher de cabelos negros.

     "Tu não vai durar nem 15 minutos lá."

     É.

     Ela estava certa.

"O que há de mais vil."

PS.: Desconfiado, embora com alguma expectativa.

No meu WinAmp tá tocando®: Jesus Christ Superstar - Everything's Alright (All right? É o caráleo.)



Escrito por Flugelboy às 17h52
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Enfermidade do dia: "Insônia".

     Texto para o 21° Concurso Maldito.


     "O domingo amanheceu cinzento. Inerte após a noite de insônia, olhava fixamente o telefone. Na esperança de adquirir coragem, levantou da cama e tomou um banho gelado. Seu reflexo no espelho do banheiro denunciava o medo estampado na face cansada. Preparou um café forte e amargo e a cada gole da bebida quente rezava uma prece sem Deus, rogando ao Nada forças para fazer o que deveria ser feito."

Vanessa Anacleto

     Imóvel

     Jamais saberia dizer ao certo quando exatamente aconteceu. Definitivamente, isso pertencia à classe de coisas que, de tão gradativas, só se tornam notáveis quando dificilmente poderiam ser revertidas.

     Uma dor na boca do estômago, um desconforto no peito, um aperto na garganta e umas lágrimas fugidias querendo escapar. A isso aprendeu a chamar Saudades. Já sentira algo semelhante, mas em menores proporções. Saudades de quem morava longe, saudades de quem não falava mais com ele, saudades dos parentes que já não estavam mais aqui. Mas, naquele momento, não sentiu saudades dos outros.

     Pensou no sarcasmo cruel da vida. Ela ali, a alguns quarteirões de distância. Não tinham brigado, sequer discutido. Nada de grandes marcos, "aqui acaba a nossa vida juntos". Simplesmente foi acontecendo. Como uma moringa rachada, onde, um belo dia, descobre-se não ter mais água. Sentiu saudades do que viveram juntos, das longas conversas ao telefone. Saudades da maneira como ela sempre desacreditava nele, e também de como ele sempre a fazia recobrar a esperança nas coisas. Tinha quase certeza que ali, do outro lado da rua, naquela janela cinzenta, havia alguém que pensava o mesmo.

     Cogitou atravessar a rua, bater à porta. Não, pareceria idiota. Ir atrás dela na faculdade, mas não queria voltar lá. Pensou em tudo, e a idéia mais plausível lhe pareceu o telefone. Um sem número de vezes pegou o aparelho, e discou o começo daquele número que jamais poderia esquecer. "Não, preciso de um café." Sentiu o elixir negro queimar cada recanto do sujeito cansado que se demanchava sobre a poltrona de braços roídos.

     Olhou o telefone mais uma vez. De súbito, sentiu medo, mais medo do que antes. Estendeu o braço e discou. Não o número dela. Lentamente, discou. A cada vez que girava o disco, reconhecia o seu próprio número. Quem sabe ele mesmo se atendesse, em algum lugar do próprio passado, e lhe explicasse o que exatamente ele perdeu no meio do caminho...

A delicada paralisia da inação.

PS¹.: Concurso legal.
PS².: Vida cansada.
PS³.: Creme gostoso.

No meu WinAmp tá tocando®: Gackt - Sayonara (Na verdade, tava tocando outra coisa, mas eu fiquei com vergonha de ouvir a mesma coisa por mais de três dias seguidos.)



Escrito por Flugelboy às 14h16
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'Sorte' do Dia: "O Universo conspirará contra os seus planos de cumprir suas obrigações militares."

     Sabe aquele dia em que você tem certeza que não devia ter levantado da cama?

     Fim de semana sem internet, o que não quer dizer que eu tenha dormido como gente normal. E hoje, de domingo pra segunda, até tentei, mas não consegui pregar o olho. Arrumei algo para me distrair até que o dia clareasse, e enfim me livraria de algo que tem me importunado bastante nos últimos tempos: a merda do serviço militar.

     Quando eram umas sete da manhã, meu WinAmp resolveu tocar o musical Evita, e eu me deitei na cama um pouco, em parte para apreciar a beleza das canções, em parte para descansar as costas. E naqueles quarenta e cinco minutos, eu hesitei entre tudo que é possível: desde levantar e me apresentar até tomar a Venezuela com um golpe militar, além de, é claro, ignorar tudo e ficar dormindo.

     Mas é claro, a obrigação pátria falou mais alto, levantei, abri meu guarda-roupa e, voilá! A calça que eu "fiz" tinha chegado da lavandeira! Convém aqui uma pequena explicação: eu tinha um jeans azul e sem graça. Meti-lhe a tesoura, deitei-lhe quiboa, e ficou uma autêntica calça "da moda", só que trezentos reais mais barata, e linda. Terminado o serviço, botei a calça pra lavar, e até esqueci de sua existência, até que abri meu guarda-roupa hoje! Me arrumei, evitei extravagâncias, afinal, é o exército!

     Assim que eu saí do quarto, minha mãe me olha de cima a baixo e solta:

     - Você vai com essa calça?

     Eu até ia insistir na rebeldia, mas hoje, atipicamente, não estava a fim de criar caso, fui e troquei de roupa, extremamente contrariado. Depois de subir e descer a escada umas vinte vezes, cada vez esquecendo uma coisa, acabei saindo, tomando apenas um café, amargo e forte (Veja as fotos aqui).

     Desci andando até a junta de alistamento militar (o que é uma puta viagem), e quando chego lá, vejo um jovem socando a portinhola de ferro verde, praguejando, e indo embora, em seu carro. Quando me aproximei da porta (não vi de longe porque estava sem lentes, propositalmente), li um ofício pregado à porta: "Hoje, dia 27 de março, não haverá expediente em virtude do aniversário de Ceilândia." Yiipeee! Que beleza. Oito da manhã, eu plantado que nem um trouxa no meio do nada, um calor infernal, eu sem carro e ainda com dor de cabeça.

     Liguei pra minha mãe, perguntei-lhe onde ficava a Junta de Alistamento Militar de Taguatinga (um outro "bairro" adjacente), e peguei uma van até lá. Eu tinha, a todo custo, que resolver essa bosta o mais rápido possível. Na viagem, sacolejos, um calor desgraçado, e uma senhora muito distinta de mini-saia amarela, com um cheiro maravilhoso de creme-rinse em seus cabelos, que não paravam de bater na minha cara.

     Chegando na Junta de Alistamento, advinhem? SÓ POSSO FAZER A MERDA DO ALISTAMENTO NA OUTRA JUNTA. Seis reais, uma manhã, sola do meu sapato, 30 litros de suor, uma dor de cabeça, tudo isso à toa! Mas que beleza! Achei melhor voltar para casa rápido, antes que alguma coisa piorasse. Mas, como sorte não é algo que eu tenho em demasia, a van na volta foi um episódio à parte. O cara não tava trasportando passageiros. Tava lutando contra o seu mal de Parkinson, apostando corrida com as outras vans e contra o relógio, mapeando as deformidades do asfalto, passando a afinação com o Quarteto dos Pneus Cantores de Petrópolis, tudo, menos carregando gente.

     Enjoado, desci para casa e rezei para não ter mais que pisar na rua hoje. Não sem antes ter que entregar os DVD's que eu vi nesse fim de semana, mas me esquivando do veado da locadora, que fica me olhando de um jeito estranho, e de quem eu morro de medo.

     O que é a epopéia do exercício da cidadania, não é mesmo, minha gente?

Braço Forte, Mão Amiga VS. Pé Cansado e Dor de Barriga.

PS¹.: Sendo obrigado a acreditar em coisas que eu sempre relutei em aceitar.
PS².: Jesus foi um cara legal, até. Lembrando que isso não tem nada a ver com o "PS¹", e as coisas nas quais eu estou sendo obrigado a acreditar não são incluem cristianismo. A idéia de ser cristão é bacana, mas os rituais enchem o saco.
PS³.: Vi Diários de Motocicleta (excelente) e Não Se Mova (desconcertante e asqueroso). A vantagem de ficar sem Internet é que assim eu vejo mais filmes. E gasto mais grana na Locadora. ¬¬.

No meu WinAmp tá tocando®: Jesus Christ Superstar - Gethsemane (Dispensa comentários. Veja a letra e sua tradução aqui.)



Escrito por Flugelboy às 18h24
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Sentimento do Dia: "Raiva".

     Dia maravilhoso. Só não foi melhor porque não choveu canivete.

     "Nós vamos tocar na abertura da Feira do Empreendedor, pro governador Joaquim Roriz." Tá, eu odeio o desgraçado do Roriz, mas dever é dever. Chegamos no Pavilhão de Exposições, onde ia ser a tal feira. O cenário, no mínimo, surreal: algo semelhante a uma represtenação cenográfica da Diamantina dos anos 50, um alambique, uma máquina de tirar retratos (como a do Seu Madruga) e umas vendinhas. E no meio da praça, um coreto. Sim, eu ia tocar num coreto, acredite ou não. Pro Roriz.

     Passamos o som e o escambau, e ficamos lá, parados. Três horas, eu disse TRÊS HORAS, sentados num coreto de mentira, esperando a joça do governador que fala "isturdia" (ao invés de "outro dia") aparecer do além, cortar a merda da fita verde e abrir a bosta da feira. Um cheiro de café delicioso vindo das vendinhas, e a gente sem poder sair do lugar.

     Fizeram uns links ao vivo pra Globo, pra Band e pra Record, e a gente lá, com o saco inchado, já. Eis que me aparece uma mulher, me cutuca e pergunta quem era aquele grupo com instrumentos musicais:

     - A Orquestra de Metais e Percussão do IPA, senhora.

     - E isso existe?

     "Não, minha filha. Aqui todo mundo é esquizofrênico, a gente tava passando e esse moço de terno preto deu esses instrumentos pra gente brincar. Sobe aí, boba, aproveita!"

     Na frente do coreto, passa uma moça vestida de noiva, duas mulheres com perucas lilases, um fotógrafo dançando, o pai de um aluno cheio da cana, e mais uma pá de coisas estranhas demais para serem relatadas. Ao fundo, um CD com apenas duas faixas: Gal cantando Copacabana (linda, mas enche um pouco, depois de algumas HORAS) e uma vinheta da Colgate de 1950.

     Depois de mais uma sessão de espera, aparece o desgraçado do governador, corta a merda da fita, ignora completamente a nossa presença e vai pro alambique. E a gente num coreto de mentira, tocando a merda do Peixe-Vivo-Viver-Fora-D'água-Fria. Tocamos o repertório todo pra meia dúzia de gatos pingados. Pra acabar a sessão-dignidade, saímos pela porta dos fundos, ganhamos um pão com presunto, cada um, e mais um suquinho. Gratificante, eu diria.

Eu já posso morrer: toquei num coreto.

PS.: O que a gente faz quando a vontade de sair correndo não passa?

No meu WinAmp tá tocando®: Joseph And The Amazing Technicolor Dreamcoat - Stone The Crows (Pharaoh said...)



Escrito por Flugelboy às 23h38
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